Fazer por merecer?

24ago12

É impressionante como, muitas vezes, ao invés de nos rendermos, em gratidão e assombro, ao grande amor e inesgotável misericórdia de Deus, apenas reconhecendo que nada somos e nada podemos fazer para recebermos o Seu favor, nós estamos tentando estabelecer a nossa própria justiça diante de Deus.

Ao invés de aceitarmos com gratidão e confiança o que Jesus já fez por nós, estamos tentando impressionar a Deus e chamar Sua atenção para nós com aquilo que nós fazemos.

Estamos vivendo do “aquele que fizer estas coisas por elas viverá”, ou, em outras palavras, estamos tentando “fazer por merecer”.

Só que viver do “aquele que fizer estas coisas, por elas viverá” é justamente aquilo que o Novo Testamento chama de viver segundo a Lei; ou seja, viver como se Jesus não tivesse ainda vindo a este mundo.

No dizer do livro de Hebreus, é escolher viver na Antiga Aliança e não na Nova que Jesus estabeleceu, em Seu sangue, com Sua morte na cruz em nosso lugar.

Viver assim é viver baseado em nossas próprias obras, realizações, justiças, virtudes e esforços, e não pela graça de Deus e na fé em Jesus e no que Ele realizou por nós.

Só que, para quem acredita desta forma, o relacionamento com Deus se torna algo extremamente frágil, inseguro e inconstante, porque o tempo todo depende de nós: de nosso esforço e aperfeiçoamento; de nossa capacidade de cumprir todos os preceitos e exigências e de nossa dedicação em fazer tudo de acordo com o que é ensinado.

Nesta forma de viver, tudo depende do nosso desempenho, atuação, testemunho, orações, confissões, declarações de fé, consagrações, renúncias, ofertas, sacrifícios, devoção, fidelidade, freqüência a cultos, conhecimento, envolvimento com a obra, participação em atividades e comprometimento com a denominação, ministério ou grupo. Em resumo, tudo depende de nós.

Pense que para quem acredita desta forma, a salvação depende dela. Não é mais um presente gratuito de Deus, unicamente por causa do grande amor com que Ele nos amou; não é mais fruto da graça maravilhosa de Jesus; mas é uma questão das pessoas conseguirem manter-se salvas até o final pelo seu próprio esforço.

Salvo e perdido, salvo e perdido, salvo e perdido: todos os dias, hora a hora, minuto a minuto. Será que você também está vivendo desta maneira?

A pergunta, porém, é que se é assim, porque Jesus, então, precisou morrer naquela cruz?

Se tudo é baseado no nosso comportamento, ofertas, compromisso com a obra, fidelidade e capacidade de sermos santos o suficiente para agradarmos a Deus, para que Jesus morreu na cruz?

Agora, nada poderia ser mais diferente do que aquilo que é ensinado nas páginas do Novo Testamento; pois nelas se diz que o “justo viverá da fé”, que “o homem é justificado pela fé independente das obras da lei”, que “estando agora reconciliados com Deus, seremos salvos por sua vida” e que o sacrifício de Jesus foi perfeito, único, eterno e suficiente.

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não colocando sobre os homens as suas transgressões e nos confiou a palavra da reconciliação, é o que lemos no Novo Testamento.

Na verdade, àquele que não conheceu pecado, isto é, Jesus, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós fossemos feitos justiça de Deus.

O que é dito é que Deus colocou o nosso pecado sobre Jesus. E este é o Evangelho. A boa notícia de grande alegria para todos.

O que o Novo Testamento afirma é que se é pelas obras, já não é pela graça, do contrário a graça não é graça.

Então, de nada adianta falar sobre a graça, se, na prática, nós a anulamos, tentando viver pelas nossas próprias obras, desempenho, perfeição, fidelidade e justiça.

De nada adianta falar sobre a graça, se, na prática, nós estamos tentando nos santificar a nós mesmos pelo nosso próprio esforço e não dependendo unicamente do que Cristo consumou na cruz por nós.

Começamos pela fé, mas estamos terminando pelas obras.

Pare e pense se não é assim que muitos de nós estamos crendo?

Na verdade a mensagem que mais está sendo passada, em nossos dias, é: “se você fizer por onde, você receberá”. Se você se empenhar, Deus fará. Se você sacrificar, a benção será sua. Se você se comportar, você desfrutará da graça. Se você falar certo, orar certo, confessar certo, declarar certo, adorar certo, levantar as mãos na hora certa, for ao lugar certo e for bastante comprometido e engajado na causa; é impossível que Deus não abençoe você. Mas foi isto que Jesus ensinou?

A ênfase está sempre no que nós fazemos e não no que Cristo fez na cruz em nosso lugar.

Para quem acredita que “depende de nós”, se você não fizer estas coisas, você estará perdido. Se você não as fizer, Deus não poderá abençoar você. Se você não as fizer, você não desfrutará da graça, como se ela fosse algo que pudesse ser alcançado, merecido ou conquistado.

É aí que para muita gente já não é mais pelo sangue de Jesus derramado em nosso lugar; já não é mais pelo favor não merecido que nós recebemos de Deus; não é mais por causa do amor incondicional e extraordinário de Deus; mas é pelo que nós fazemos e deixamos de fazer.

No fundo, para quem acredita desta maneira, você tem que merecer, fazer, cumprir, comprar, trocar, pagar, compensar, provar, mostrar, conquistar e realizar. Tudo passa a ser uma troca.

A questão é que esta mensagem não é o que ensina o Evangelho de Cristo.

Porque se é pelas obras, então, é pela Lei. E se é pela Lei, então, o que se está dizendo é que Cristo morreu em vão, estamos esvaziando a Cruz de Cristo do seu significado, estamos caindo da graça.

Fico pensando se não estamos voltando atrás quinhentos anos de História, para fazer as mesmas coisas que se faziam na época de Lutero, por exemplo, quando as pessoas compravam relíquias “sagradas”, acreditando que elas carregavam em si mesmas o poder e a virtude de Deus; quando as multidões viam determinados homens como mais “santos” do que elas e recorriam a eles para receberem o perdão e os favores de Deus; quando a crença era que a salvação dependia do que as pessoas faziam para merecê-la, a ponto da religião daquele tempo vender as famosas indulgências, que nada mais eram que um documento que declarava que aquele que o possuísse, bem como seus familiares, estavam, a partir do momento de sua compra, perdoados de todos os seus pecados.

Foi em meio a coisas como estas que Lutero começou a anunciar a salvação e o perdão de Deus unicamente pela fé na obra redentora de Cristo na cruz em nosso lugar; a pregar que o único Mediador e Sacerdote entre Deus e os homens é Jesus e que há salvação fora da Igreja; só não há salvação fora de Cristo.

A pergunta é: estamos crendo no Evangelho de Jesus ou em um outro evangelho que não é o Evangelho?

A Lei diz que “aquele que fizer estas coisas, por elas viverá”. A questão é que até hoje, o único que fez todas aquelas coisas foi Jesus e mais ninguém, simplesmente, porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.

É por isto que pela prática da Lei ninguém será justificado diante de Deus. Porque pela Lei só vem o conhecimento do pecado. O que a Lei me mostra é o quanto eu errei o alvo de Deus e o quanto eu estou longe dele. Nenhum de nós cumpriu toda a Lei; só Jesus fez isto.

É aí que a mensagem que o Evangelho anuncia é que “o justo viverá da fé”.

Fé é olhar unicamente para Jesus. Fé é a confiança simples no que Jesus fez em nosso lugar. Fé é escolher confiar que aquilo que Jesus fez foi o suficiente. Fé é escolher colocar toda a nossa dependência na obra que Cristo realizou na cruz em nosso lugar.

Fé que sabe que é o amor de Cristo que me sustenta e não eu a ele e que é a graça de Deus que me sustenta e não eu a ela.

A fé descansa em Jesus. A fé crê que está consumado e não tenta acrescentar e nem somar nada ao que já foi consumado por Jesus na cruz.

Você crê em Jesus? Apenas em Jesus?

Não vamos anular a graça de Deus e nem tornar vã a cruz de Cristo, mas vamos voltar a crer no Evangelho de Jesus e apenas nele.

Minha sugestão é que você volte a ler os Evangelhos e o Novo Testamento, com simplicidade e como se nunca os tivesse lido antes em sua vida, deixando a Palavra de Deus revelar a você o amor de Cristo que vai além de todo o entendimento.

Pense nisto.

Paulo Cardoso

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